terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

O QUE QUER UMA MULHER






Um bebê nasce. O médico anuncia: é uma menina! A mãe da criança, então,

se põe a sonhar com o dia em que a sua princesinha terá um namorado de

olhos verdes e casará com ele, vivendo feliz para sempre. A garotinha

ainda nem mamou e já está condenada a dilacerar corações. Laçarotes,

babados, contos de fadas: toda mulher carrega a síndrome de Walt Disney.

Até as mais modernas e cosmopolitas têm o sonho secreto de encontrar um

príncipe encantado. Como não existe um Antonio Banderas para todas, nos

conformamos com analistas de sistemas, gerentes de marketing, engenheiros

mecânicos. Ou mecânicos de oficina mesmo, a situação não anda fácil.

Serão eles desprezíveis? Que nada. São gentis, nos ajudam com as

crianças, dão um duro danado no trabalho e têm o maior prazer em nos

levar para jantar. São príncipes à sua maneira, e nós, cinderelas

improvisadas, dizemos sim! sim! sim! diante do altar. Mas, lá no fundo,

a carência existencial herdada no berço jamais será preenchida.

Queremos ser resgatadas da torre do castelo. Queremos que o nosso

pretendente enfrente dragões, bruxas, lobos selvagens. Queremos que ele

sofra, que vare a noite atrás de nós, que faça tudo o que o José Mayer,

o Marcelo Novaes e o Rodrigo Santoro fazem nas novelas. Queremos ouvir

"eu te amo" só no último capítulo, de preferência num saguão de

aeroporto, quando ele chegará a tempo de nos impedir de embarcar.

O amor da vida real, no entanto, é bem menos arrebatador. "Eu te amo"

virou uma frase tão romântica quanto "me passa o açúcar". Entre casais,

é mais fácil ouvir "te amo" ao encerrar uma ligação telefônica do que ao

vivo e a cores. E fazem isso depois de terem se xingado por meia-hora.

"Você vai chegar tarde de novo? Tenha a santa paciência, o que é que

você tanto faz nesse escritório? Ontem foi a mesma coisa, que inferno!

Eu é que não vou preparar o jantar pra você às dez da noite, te vira.

Tchau, também te amo." E batem o telefone, possessos.

Sim, sabemos que a vida real não combina com cenas hollywoodianas.

Sabemos que há apenas meia dúzia de castelos no mundo, quase todos

abertos à visitação de turistas. Sabemos que os príncipes, hoje, andam

meio carecas, usam óculos e cultivam uma barriguinha de chope. Não são

heróicos nem usam capa e espada, mas ao menos são de carne e osso, e a

maioria tentaria nos resgatar de um prédio em chamas, caso a escada

magirus alcançasse o nosso andar. Não é nada, não é nada, mas já é

alguma coisa.

Dificilmente um homem consegue corresponder à expectativa de uma mulher,

mas vê-los tentar é comovente. Alguns mandam flores, reservam quarto em

hotéizinhos secretos, surpreendem com presentes, passagens aéreas,

convites inusitados. São inteligentes, charmosos, ousados, corajosos,

batalhadores. Disputam nosso amor como se estivessem numa guerra, e pra

quê? Tudo o que recebem em troca é uma mulher que não pára de olhar pela

janela, suspirando por algo que nem ela sabe direito o que é. Perdoem

esse nosso desvio cultural, rapazes. Nenhuma mulher se sente amada o

suficiente.

(Martha Medeiros)

Agosto de 1997


Um comentário:

  1. "nos conformamos com analistas de sistemas!?!?!", olha preciso defender a classe, essa foi pesada....hauhauhaua
    amiga linda, vocês mulheres realmente nunca estão satisfeitas né?
    mas não custa nada tentar...rs

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